‘Emergentes não podem liderar a recuperação da economia global’

postado em: Notícias | 0

Deepak Nayyar é um dos mais influentes economistas indianos, especializado em comércio internacional, desenvolvimento, e questões relacionadas à globalização. Professor emérito da Universidade Jawaharlal Nehru, em Nova Delhi, ele participou do segundo Congresso Internacional Centro Celso Furtado, no Rio, com a palestra “Um novo desenvolvimento para uma nova democracia”. Nayyar afirma que o crescimento econômico das economias emergentes já começa a mudar o equilíbrio do poder econômico mundial. Mas isso não significa que esses países possam liderar a recuperação da economia global, já que eles não podem oferecer recursos para investimentos, financiamento para desenvolvimento ou tecnologia, como os Estados Unidos fizeram no século 20.

Há uma percepção de que o Brics ( Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) é importante porque a China e outros emergentes podem impulsionar o crescimento global e liderar uma recuperação econômica. Isso é correto?

É verdade que o rápido crescimento da China já é um apoio ao crescimento no mundo até agora como mercado para exportação, enquanto Índia e Brasil tem potencial para oferecer apoio similar. No futuro, esses países poderão também oferecer recursos para investimento e tecnologias . Isso pode levar meio século ou mais. O crescimento econômico nessas grandes economias emergentes já começa a mudar o equilíbrio do poder econômico mundial. Mas isso fez com que surgissem análises com conclusões erradas, como a de que esses países poderiam liderar a recuperação da economia global. Esses países não podem liderar esse processo ou se transformar no motor de crescimento já que nenhum deles podem oferecer recursos para investimentos, financiamento para desenvolvimento ou tecnologia para produtividade, como a Grã-Bretanha fez no século 19 e os Estados Unidos fizeram no século 20. Assim, a perspectiva de recuperação da economia global, no médio prazo, depende do ritmo e da natureza da recuperação do mundo industrializado, em particular os EUA. No que se refere à China, o país não é um motor de crescimento em todas as dimensões.Isso também por causa de seu superávit comercial. A China não pode criar demanda e impulsionar o crescimento em outros países. Até a China e também a Rússia equilibrarem esse superávit comercial, elas não poderão ser motores do crescimento para a economia global e liderar a recuperação.

O século 21 já vem sendo chamado de século asiático, com a China e a Índia como líderes. Isso poderá durar muito? 



Vamos analisar isso do ponto de vista histórico. O significado da Ásia não é novo. Por 1.500 anos a Ásia foi dominante na economia mundial. A China e a Índia produziam os bens manufaturados, como tecidos indianos ou porcelana chinesa, para a Europa, que tinha um grande déficit comercial. Nesse sentido, essa imensa importância da Ásia não é nova. É uma volta ao passado. Se há uma progressão linear nesse caminho, este será o século da Ásia. Mas essa é uma hipérbole porque a economia é muito mais complicada e a política é mais complicada ainda.

A notícia da criação do Banco de Desenvolvimento do Brics foi recebida com grande entusiasmo, visto como um desafio ao monopólio do Banco Mundial e do FMI. O banco será uma alternativa ou um substituto a essas instituições?

Seria uma alternativa, mas não um substituto. Não sei como será sua forma. Isso vai depender das negociações. Mas é possível imaginar alguns cenários. O banco do Brics, por exemplo, pode tornar-se o primeiro passo para que esses cinco países unidos criem uma instituição multilateral que forneça financiamento para projetos de desenvolvimento. Se isso funcionar de uma forma democrática pelo princípio “um país, um voto”, seria bom. A estrutura de governança do Banco será muito importante. A metodologia de oferecimento de empréstimos fará uma imensa diferença. O Banco Mundial e o FMI se caracterizam por um imenso déficit democrático. Os Estados Unidos, a União Europeia e o Japão têm maioria de quotas e têm o poder nas mãos. A questão é : esses países vão implementar o princípio de cinco países com igual poder ou a China terá a maior quota? Um detalhe importante é se outros países em desenvolvimento serão incluídos no banco. Afinal, o banco vai emprestar dinheiro para países em desenvolvimento que não têm acesso ao sistema financeiro internacional. Será importante também conhecer a filosofia moral do banco e as condições para concessão de empréstimos. As condições impostas pelo FMI e pelo Banco Mundial tornaram-se muito intrusivas. Se todos os passos certos forem tomados, o banco do Brics pode tornar-se uma alternativa real ao Banco Mundial. Então, o Banco Mundial será obrigado a competir com o banco do Brics para emprestar. Mas se o Banco do Brics seguir o caminho que o Banco Mundial já fez, então será um substituto do Banco Mundial.

Será criado também um fundo de US$ 100 bilhões. Como isso ajudará os países emergentes e em desenvolvimento?

Há quem tenha ficado animado com a ideia desse fundo de reservas. É uma boa ideia, já que trata-se de um passo positivo porque tem o potencial de gerenciar eventuais crises financeiras futuras. Quando um país sofre uma crise financeira,o FMI não tem recursos para oferecer,e impõe uma série de condições. O fundo, com os cinco países colocando suas reservas, deteria especuladores e a volatilidade do mercado financeiro mundial. Essa é a conclusão lógica do que os países em desenvolvimento fizeram nos anos 90, ou seja, o preço de pedir empréstimos ao FMI era alto demais em termos das condições impostas.

O banco do Brics atraiu muita atenção na Índia. Isso se deve ao fato de que o primeiro presidente da instituição será um indiano?

Eu acho que o fato mais importante é onde a sede do banco será localizada e não quem será seu primeiro presidente. Mas é claro que o primeiro presidente pode fazer diferença se for um nome bem escolhido. Mas na Índia, nós tendemos escolher com base na indicação política. Isso seria um desastre. Mas de qualquer forma um presidente do banco que tenha uma estatura e imaginação pode fazer uma grande diferença. Instituições são mais importantes do que indivíduos. Mas indivíduos competentes podem mudar instituições para melhor.

O banco pode funcionar com os países dos Brics tendo diferenças entre eles?

É muito cedo para fazer um julgamento sobre o banco e para saber se esses países podem apagar as suas preocupações e esquecer seus conflitos.No entanto, o anúncio do banco é um grande passo adiante porque é a primeira manifestação de cooperação, senão de solidariedade, entre países que até então estiveram distantes.

Alguns temem que o banco torne-se uma versão chinesa do FMI e do Banco Mundial. Essa ameaça existe?

Não acredito. Muito vai depender da primeira fase de negociações sobre a formação do banco. Eu soube, durante o encontro dos Brics em Fortaleza, que os chineses deixaram absolutamente claro que o banco deveria ser localizado em Xangai. Se não fosse, tudo estaria suspenso. O melhor que os chineses puderam fazer para os indianos era oferecer a primeira presidência do banco. Eu não sei se isso é inteiramente verdade. Mas existe algum risco de que o novo banco seja controlado pela China.

Desde a sua formação, os Brics focaram muito em questões financeiras. Agora, com a criação do banco, o grupo não deveria olhar para outras áreas?

A criação do banco de desenvolvimento foi um processo de reação porque esses países em desenvolvimento sofreram nas mãos do FMI e do Banco Mundial de alguma forma. Se você olhar para a China e para a Índia, as suas lideranças são muito mais inclinadas em costurar parcerias com os EUA e com os países ocidentais do que em fortalecer os laços entre si, com atitudes de solidariedade entre países em desenvolvimento. No entanto, há muito potencial no Brics se a interação entre os cinco países acontecer também nas áreas política e social, além dos seus governos. Eu acho que o Brasil e a Índia deveriam começar a estabelecer mais parcerias em várias setores, como na academia,nas ciências, na tecnologia, nos projetos da sociedade civil.Temos muito o que aprender uns com os outros. temos que olhar para além do Banco de desenvolvimento. Os Brics vão se tornar uma ideia muito mais formidável se for além da interação governo-governo.

No encontro de Fortaleza, o primeiro-ministro Narendra Modi falou sobre o contato entre pessoas dentro dos Brics.Esse pode ser então um bom começo?

Eu espero que ele estabeleça uma mesa redonda Índia-Brasil para levar isso adiante. Nós podemos aprender muito uns com os outros. Os Brics devem ser um grupo que vai articular opiniões e exercitar influência em assuntos internacionais. Deve trabalhar para reformar as Nações Unidas, que perdeu credibilidade e influência. Se os cinco países se unirem, podem fazer muita diferença e serem mais efetivos na Organização Mundial do Comércio (OMC) e nas negociações sobre mudanças climáticas.

Mas nos recentes encontros da OMC em Genebra, a Índia vetou um grande acordo e ficou isolada. Essas diferenças dentro da OMC podem prejudicar o projeto Brics?

Eu não acho que essas diferenças possam atrasar o projeto Brics. Por um longo tempo, Brasil e Índia tem sido as vozes do mundo desenvolvido na OMC. Eles usaram a sua influência para defender os interesses dos países em desenvolvimento. Ocasionalmente há diferenças e conflitos entre os países que exportam e importam produtos agrícolas. Seus interesses são diferentes. Mas essa foi a primeira vez que a índia ficou completamente isolada na OMC. O que a Índia tem pedido é perfeitamente razoável (conceder subsídios para seus agricultores).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

três × 5 =